Um dos temas a que me dediquei como pesquisador é a história do nazismo no Brasil. Por consequência, sou consultado, com alguma frequência, como suposto conhecedor da história do nazismo na Alemanha. Invariavelmente, sou obrigado a decepcionar os interessados, pois meu conhecimento sobre o nazismo na Alemanha não passa de elementar, de senso comum. Felizmente, conheço pessoas que se dedicam ao tema, às quais posso remeter. Uma delas é Vinícius Liebel, professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele é especialista, no mínimo, desde a defesa de sua tese de doutorado, na Universidade Livre de Berlim, em 2011, intitulada Politische Karikaturen und die Grenzen des Humors und der Gewalt [Caricaturas políticas e os limites do humor e da violência]. Em 2018, publicou, pela Editora Contexto, um alentado volume de 317 páginas sobre Os alemães. Mesmo que não seja um livro específico sobre o nazismo, há um capítulo dedicado a ele.

Neste ano de 2025, Vinícius Liebel se apresenta com um novo livro, dedicado a uma análise sobre a implantação e a consolidação do nazismo na Alemanha – O povo de Hitler: a nazificação da Alemanha –, pela mesma editora. Não se trata de uma apresentação cronológica da evolução do regime, mas de uma avaliação analítica, destinada tanto a um público especializado quanto a interessados em geral, sem aparato de notas de rodapé ou remissões bibliográficas, ainda que, ao final de cada capítulo, sejam apresentadas uma “bibliografia recomendada” e uma “filmografia recomendada”. Tudo isto torna a leitura muita fluente e agradável.

Em cinco capítulos, o autor aborda “o nazismo no campo das ideias”, “o nazismo nas estruturas de poder”, “o nazismo e a sociedade”, “o nazismo no cotidiano” e “o nazismo e seu caminho rumo ao Holocausto”. Aqui cabe destacar, em especial, o terceiro e o quarto capítulos, que se arriscam no controvertido terreno de enfocar o nazismo não tanto da perspectiva ideológica e de dominação de estruturas de poder, mas do envolvimento de alemães comuns, em carne e osso. Tudo isso é feito a partir de referenciações historiográficas, da apresentação de exemplos buscados em filmes e em textos memorialísticos, numa leitura simples, mas consistente. Trata-se, portanto, de um livro destinado e adequado a um público amplo.

Pela qualidade do livro, tomo a liberdade de acrescentar uma observação pessoal, que acaba envolvendo o próprio Brasil. Ao abrir o capítulo cinco, sobre o Holocausto, lê-se que “estruturas sociais e de convivialidade já existentes foram nazificadas, ou seja, moldadas de acordo com as práticas, o discurso e a estética nazistas” (p. 195). Trata-se, aqui, de inquirir se tradições mentais e práticas especificamente alemãs possam ter constituído terreno fértil para a expansão do nazismo. Nesta linha, ao longo de todo o texto, uma das referências mais citadas é a do pensamento e da mobilização “völkisch”, que se expandiu a partir do final do século XIX, propagando uma concepção “étnica”, “popular” alemã, um nacionalismo exacerbado, com forte conotação antissemita.

Na historiografia alemã sobre o nazismo há uma tradição prévia (que não exclui, necessariamente, a “völkisch”) arrolada, com frequência, como possível facilitadora da vitória nazista, a “via prussiana”, na língua alemã conhecida como o “Sonderweg”, a “via peculiar” trilhada pelo Estado alemão instaurado em 1871. Vinícius Liebel parece não ser entusiasta desta perspectiva, pois – salvo leitura displicente de minha parte – só utiliza o adjetivo “prussiano” uma única vez (p. 160). Como o livro foi escrito para ser lido no Brasil, tomo a liberdade de remeter a um pequeno artigo meu intitulado “o Sonderweg do Rio Grande do Sul”, no qual tento mostrar que cientistas sociais alemães alertaram, enfaticamente, contra uma nova incursão em uma “via peculiar”, após a reunificação, em 1989, defendendo uma adesão clara ao “Ocidente” (vide link ao final deste texto).

Mas se na tradição alemã o “Sonderweg” é apontado como problemático, uma cultura historiográfica brasileira significativa está empenhada justamente numa louvação à “via peculiar” gaúcha, instaurada por Júlio de Castilhos, após a vitória contra os “federalistas”, em 1895, e que se expandiu para o nível nacional, a partir de 1930. Não sou expert em Direito, mas sei que Carl Schmitt foi um dos mais importantes juristas nazistas – se não o mais importante. O mais importante jurista do Estado Novo brasileiro, uma das mais destacadas etapas do “Sonderweg” gaúcho, agora em nível nacional, Francisco Campos, foi leitor assíduo de Schmitt. Em seu livro O Estado nacional, escreveu que o princípio que balizou o regime foi “um chefe, um povo, uma nação”. Quem domina a língua alemã sabe que isto significa, exatamente, “ein Führer, ein Volk, ein Vaterland”. Conheço muita gente que, até hoje, prefere ler Carl Schmitt a ler Hans Kelsen.

Esta pequena observação pessoal se justifica pela importância do livro de Vinícius Liebel, e pelas possibilidades de discussão que ele abre. [8/11/2025]

 

https://www.renegertz.com/arquivos/EIA2011.pdf